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14 de mar de 2011

Sobre Oftalmologia, dias nublados e Carnaval - [ Por Clayton Leme ]



‎'Então o que você quer? Mudar a humanidade?
Não, alguma coisa mais modesta que a humanidade: se transforme, como ela mesma já fez duas ou três vezes'.
Cornélius Castoriadis



Não sou das ciências oftalmológicas, muito menos da medicina, mas algo curioso acontece com a humanidade de tempos em tempos, que acredito não ser, o único “Ser” a experienciar esse tipo de alteração.
No Aurélio, dicionário popular de pesquisa da língua, podemos encontrar da seguinte forma – “retina: membrana ocular interna, em que estão as células nervosas que recebem os estímulos luminosos, e onde se projetam as imagens produzidas pelo sistema óptico ocular”.
Um dia comum, como qualquer outro. Será?
Talvez irreconhecível pelo feriado nublado, no mês de março, muito diferente do normal, pelo frio ou quem sabe pelo trânsito incansável de nuvens que ora choram, ora sorriem dando espaço para a ocupação das ruas. Enfim, confusões com o tempo, melhor não entrar em detalhes ou tentar explicar, ele passa, ou quem sabe passamos por ele.
O que, realmente, importa é o encontro marcado. Não se sabe ao certo o formato, afinal ele depende das pessoas para construir juntos, mas o importante é dar início: Carnaval da Cidade de Votorantim! A meta é clara, festa em família, segura, no centro e nos bairros, alterar o modo como podemos propor o encontro.
Na vida é assim, vamos caminhando, alterando o que é necessário para dar continuidade à vida, sendo alterados ao mesmo tempo. É claro que essa relação é mais simples quando nos permitimos olhar para a complexidade que as coisas têm. O mundo precisa ser reencantado. Não como a recriação de um mito, mas olhar o mundo com espanto, com deslumbramento, assim como Heráclito nos diz “que a morada do homem é o extraordinário”, Se ele voltar a ocupar este espaço, voltará a reencantar o mundo. Que a intenção ou a ordem seja a de se surpreender a cada esquina, se conectar. Devemos nos perguntar: como vamos encontrar outra vez a sensação mágica das coisas?
É nesse lugar de reencantamento das coisas que o Carnaval de Votorantim, muito questionado pela sua transformação, surge. Nasce do cruzamento de um olhar responsável, com o jeito seguro e tranqüilo da cidade que se deseja para as pessoas. Os dias nublados de Carnaval da cidade, vieram para mostrar que realmente seriam momentos nunca vistos anteriormente, não no mês de Março, não em 2011 e não com aquelas pessoas, naquele formato.
O tempo ficou confuso, ora ria, ora chorava. Acredita-se que as lágrimas derramadas sobre os cortejos carnavalescos nos bairros eram de emoção ao ver a seriedade com que as crianças levavam a brincadeira e a diversão em família. Talvez por, raramente, terem oportunidades de se renderem a essa experiência com toda a família por perto ou mesmo sob os olhos atentos e participativos dos pais. Diversão essa que não estabelecia relação a partir da carência ou por classificações bobas da sociedade como: periferias e centros, afinal, quem ainda não compreendeu que toda periferia é também um centro?
Diversão é diversão, não escolhe classes ou perfis de pessoas, ela pertence à quem quiser tocá-la, não custa e não seleciona, apenas espera. Nesse carnaval não esperou por muito tempo, lá estavam as pessoas fantasiadas ou não, com adereços, pinturas ou até mesmo somente com o mais importante, o corpo atento e disponível, para abraçar, pular e sorrir com olhos e bocas.
Um dia a gente acorda e descobre que tudo foi um sonho. Questionamentos surgem de todos os lados, tentando encontrar um vestígio de carnaval, daquele carnaval, onde será que foi parar? Não houve? Onde está a grande festa da cidade, perdeu-se no tempo? O tempo passou, o bloco passou e quem se dispôs à ir para a sacada e para as janelas viu a banda passar. Passou movida pela alegria das crianças, pais, gatos e cachorros, pessoas fantasiadas de cores e cores fantasiadas de pessoas. Assim um pacto foi formalizado na cidade, de que quando questionados, só diríamos que foi um sonho e que quando tivéssemos a necessidade de lembrar como foi, contaríamos aos cochichos aos interessados.
Quanto à oftalmologia? Não me esqueci não, só lembrava-me das pessoas que durante a festa de carnaval ajudaram-me a trocar as retinas, por um par novinho em folha, e sem fila de transplante. Esta troca deve acontecer sempre que possível, pois assim revigoramos nossas escolhas, nossos conceitos, pensamentos de mundo e de nós mesmos. Assim nos propomos a sempre reinventar um mundo no qual somos co-criadores e co-participantes.
Trocar as retinas nos possibilita caminhar pelas ruas e em qualquer esquina encontrarmo-nos com o deslumbramento da vida. Depois de cinco dias de Carnaval em Votorantim, nós participantes voltamos para casa mais pó do que líquido. Não poderíamos segurar o tempo, mas sim percebê-lo. Fomos para casa encantados. Fomos para casa empoeirados, com pó de estrela.


P.S. Quem quiser lembrar ou tentar imaginar como foram esses dias, é só olhar aqui e verificar do que estamos falando:

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